terça-feira, 27 de dezembro de 2011

Derivando...



Vaguei em sonhos meio acordado
Despi minh’alma meio sem vergonha
Olhos nublados feito céu carregado
Rolei pra o lado que despi a fronha

Costurei na mente uma imagem santa
Me pareceu Davi de Michelangelo
Ou talvez fosse uma mulher de manta
Tal qual aquela da hora do Angelus

Brinquei que eu era um herói do futuro
A construir palácios e castelos
Aberto a todos sem proteção de muros
Livre das sombras perene do flagelo

Cantei no silêncio uma canção arcaica
Que me fez lembrar um tempo não vivido
Chorei uma lágrima meio assim prosaica
Na fonte serena de um lugar escondido

Rezei aos poetas nobres de vanguarda
Para que trouxessem na palavra, arroubos...
Seguidos de luz e da verdade que aguarda
A hora certa de desmascarar os lobos

Quando enfim me retirei do meio sono
Me senti assim meio metade do que fui
Quem sabe fosse vertigem do abandono
Ou apenas uma sensação que não me flui.

Heitor Idílio (Pseudônimo de Alma de Poeta)



quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Quando o olhar se engana



É engraçado e ao mesmo tempo estranho como as pessoas dão valor inestimável à mera aparência. Certa vez estava eu no ponto de ônibus, aguardando, quando de repente vinha um mendigo em direção às pessoas que juntamente comigo também aguardavam a chegada do ônibus. Era um homem de meia idade, de roupas rasgadas, bastante sujo, descalço e de cabelos longos, olhos de fome e extremamente exausto pelas opressões da sociedade. Com certeza o tempo não havia sido gentil com sua vida e, perspectiva era algo avesso ao que se podia enxergar naquela ocasião. Mas o que me chamou a atenção foi que ele olhava com firmeza e sinceridade nos olhos das pessoas que ali estavam, pedindo delas apenas algumas moedas para saciar sua fome e nada mais. E como é o costumeiro, algumas pessoas diziam que não tinham dinheiro pra lhe dar, isso quando chegavam a falar, pois, muitas nem sequer abriam a boca pra dizer um “não tenho”.  Algumas até diziam: “deve ser pra comprar drogas ou pra tomar cachaça”. Observei atentamente a reação das pessoas que ali estavam e, quando o mendigo se dirigiu até a mim pedindo umas moedas, não indaguei pra quê mesmo seria o dinheiro, apenas tirei do bolso umas poucas moedas e o entreguei. Não sou muito de acreditar nos pedintes, mas ele me pareceu bastante franco e convincente quando disse que estava com fome. Quando o entreguei as moedas, ele me disse o seguinte: – Amigo, na verdade eu não sou mendigo e nem preciso do dinheiro, pelo contrário, sou muito bem resolvido financeiramente. Me passei por mendigo intencionalmente a fim de conhecer  como as pessoas realmente são e, com certeza eu pude perceber que a aparência veste uma pessoa, porém, não diz o que ela realmente é. Tenha um bom dia e obrigado por ter confiado na minha aparência.

Heitor Idílio (Pseudônimo de Alma de Poeta)

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

Quando o canto é santo



Quando um canto acalanta a alma
Tudo que é tristeza desvanece
Aflição que aperta no peito se acalma
E memórias ruins de outrora se esquece

Quando um canto encanta o sorriso
Uma simpatia no olhar se abre
E o desejo de se dar, indeciso...
Perde o juízo e cria coragem

Se entrega ao tempo e ao momento
Sem medo de alguém,
Teu sentimento crucificar...
Se atira ao mundo e ao profundo
Que é cedo também,
Pros segundos, dela te levar...

Quando um canto encontra no belo
A certeza de ser livre e pleno
Nada no mundo pode desfazer o elo
Que habita o cais de um mar sereno

Se entrega ao tempo e ao momento
Sem medo de alguém,
Teu sentimento crucificar...
Se atira ao mundo e ao profundo
Que é cedo também,
Pros segundos, dela te levar...

Heitor Idílio (Pseudônimo de Alma de Poeta)

*Imagem do pintor Marc Chagall.

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

Estrela da manhã


Não sei quando sua luz brilha
Nem sei se ela é filha de Iansã
Só sei que traduz maravilha
Ter nome de estrela da manhã

Fulgura no céu a tua imagem
Não sei que paisagem costuma ela ser...
Mas sei que se for uma miragem
Ao menos de perto eu pude ver

Esse teu olhar de mistério
Revela um império cheio de sedução
Se ela deixa alguém aéreo
Também tira do sério qualquer razão

A aurora anuncia a tua chegada
Depois da madrugada vai aparecer
A estrela vestida de sol acordada
Tão iluminada mais que o resplandecer

Teu gosto para mim é um suspense
Mesmo que eu pense como ele é
Estou certo que minha intuição vence
Pois sei que é divino o sabor de mulher

A dúvida que não se cala
Abala o pensamento que eu tento conter
Será que você ainda me fala
Sobre quais palavras lhe dão mais prazer?

Agora então me despeço
Mesmo que imerso na minha ilusão
Não pude escrever-te o universo
Apenas uns versos de admiração.

Heitor Idílio (Pseudônimo de Alma de Poeta)

quarta-feira, 22 de junho de 2011

Assim sozinho...


Resgata o que ficou de bom em mim
Retrata o que você compreendeu
Mas deixe que eu fique sozinho assim...
Em busca do que em mim se perdeu.

Não sei se mudarei da água pro vinho
Não sei do amanhã o que será...
As pedras que estão no meu caminho
São pedras que o tempo moverá...

Do que eu preciso só quem pode oferecer sou eu,
Mesmo indeciso sobre o que pode ser melhor,
Não choro culpas, nem entrego meu destino à Deus,
Apenas quero em silêncio ficar só.

Heitor Idílio (Pseudônimo de Alma de Poeta)

terça-feira, 24 de maio de 2011

Rua dos prazeres


Quanto tempo eu já não passo
Pela rua dos milagres
É que a rua dos prazeres
Anda roubando toda minha atenção

E é inevitável não passar por sua esquina
E não parar pra ver as meninas...
A dançar quase despidas,
Rodopiando pelo chão...

Lá nessa rua ninguém é santo
É puro antro de perdição,
Basta apenas encostar-se a um canto
Que elas já conhecem direitinho a lição...

Até Santinha que é a mais comportada
Quando cai na gandaia ninguém a segura
Com sua mini saia toda desfiada
Faz logo a moçada ficar na fissura

É daquelas que sabe fazer alguém desatinar
De salto alto, corpo ereto e olhos precisos
Cabelos soltos de armadilha pra agarrar
Esfinge que ilude pelo gesto de um sorriso

Nessa rua, Santinha é a que mais chama atenção
E as outras com inveja a olham de viés
Como se ela fosse mulher de prostituição
Mas não, é porque sabe ser mulher da cabeça aos pés...

Não deve nada a ninguém, é muito bem resolvida,
Se ela se encanta por alguém, apenas quer gozar a vida...

Não se apega aos rapazes, pois não quer ter compromisso,
Já sofreu muitos azares e cansou de ver seu grito omisso...

Agora ela quer expandir seus horizontes
E esteja certo que para todos os abismos
Ela irá firmemente construir uma ponte
E vai dar na cara de qualquer cinismo.

Heitor Idílio (Pseudônimo de Alma de Poeta)

quarta-feira, 13 de abril de 2011

De corpo a corpo


Vira-se o corpo do avesso
Fazendo dele um instrumento de poder
Absoluto como o ser em si,
Tão dissoluto feito bocas sem pudor...

Um desejo que oscila modulando
Despejando aquilo que dá e passa
Que arrasa, unifica e faz bem,
Com precisão de uma *fuga enfurecida...

É apenas satisfação carnal,
Diz o instinto animal...
É apenas objeto de desejo,
Diz o corpo ao ensejo...

O único sentimento permitido
É aquele contraído pelos órgãos
Quando não se pensa
E não se procura explicação

Somente recebe e dá prazer
O leite, o deleite, o aceite...
O falo, o regalo, o abalo...
O ébrio, o tédio, o remédio.

A busca incessante pelo efêmero,
O exílio da realidade fatigante,
A perda da consciência vã,
O suicídio vagaroso dos dias...

Todo esse véu nos impele
A olhar a pele como veste camuflada
Por preceitos puritanos medievais
Fechando os olhos para o que há de mais concreto,
Para o que há de mais mundano e natural.

*Estilo de composição contrapontista, polifônica e imitativa, de um tema principal, com sua origem na música barroca.

Heitor Idílio (Alma de Poeta)